
A produtora de café Iandra Vilela, coordenadora do grupo Cafeína Cocatrel, é um exemplo de como o protagonismo feminino tem ganhado força dentro do agronegócio brasileiro. Em entrevista ao videocast A Protagonista, ela contou como deixou a carreira na área de nutrição para atuar diretamente na cafeicultura no Sul de Minas Gerais e liderar um dos maiores movimentos femininos dentro de uma cooperativa de café no país.
Formada em Nutrição, Iandra atuou por cerca de dez anos na área antes de conhecer o universo do café. A mudança de rumo veio após se casar com um agrônomo e se aproximar da rotina da propriedade rural. “Eu não venho de família de cafeicultores, mas me apaixonei pelo café. Existe um ‘bichinho do café’ que, quando pica, você não sai mais”, afirmou.
A transição de carreira aconteceu em 2016. Segundo ela, a formação em nutrição contribuiu diretamente para o novo caminho profissional, especialmente no olhar voltado à qualidade e aos processos de pós-colheita, área em que hoje é especialista. “Sempre enxerguei o café como um alimento”, destacou.
Um grupo que nasceu pequeno e virou referência
O Cafeína Cocatrel foi criado em 2017, a partir de um levantamento realizado pela Embrapa e pelo Ministério da Agricultura sobre a presença feminina nas cooperativas cafeeiras do Brasil. O estudo apontou a Cocatrel como a cooperativa com maior número de mulheres envolvidas na atividade.
“O grupo começou com cerca de 500 a 600 mulheres. Hoje, são 2.080 produtoras titulares, que estão à frente das propriedades, tomando decisões e comandando os negócios”, explicou Iandra. Somando esposas e filhas de cooperados, o movimento reúne atualmente mais de 3 mil mulheres organizadas dentro da cooperativa.
O foco inicial foi abrir espaço para o acesso ao conhecimento técnico, permitindo que essas mulheres participassem das decisões nas propriedades em igualdade de condições. “Muitas não conseguiam sentar à mesa e conversar sobre uma desbrota ou uma adubação. A ideia foi abrir a porteira do conhecimento”, afirmou.
Os encontros acontecem com frequência quinzenal e, em alguns períodos, semanalmente, tanto na matriz quanto nas filiais da cooperativa, respeitando as particularidades de cada região.
Café de mulheres que ganhou o mundo
Com o amadurecimento do grupo, surgiu também a oportunidade de avançar para o mercado internacional. Em 2019, o Cafeína Cocatrel realizou a primeira exportação de um contêiner de café produzido exclusivamente por mulheres.
Hoje, o blend Cafeína está presente em mais de 25 países e chega a mais de 50% do centro empresarial de Londres, levando o café brasileiro produzido por mulheres para alguns dos mercados mais exigentes do mundo.
“Não é só o recurso financeiro que entra nessas famílias. É o reconhecimento do trabalho dessas mulheres, feito no sol e na chuva, numa empresa a céu aberto”, destacou Iandra.
Como forma simbólica de valorização, cada exportação é marcada pela entrega de uma sacaria de juta às produtoras, com o nome, a origem e a fazenda. “Elas recebem como se fosse um troféu. Muitas dizem que vão colocar em um quadro. Isso emociona”, contou.
Formação, apoio emocional e sucessão no campo
Além da produção e da exportação, o grupo também atua no apoio a mulheres que assumem propriedades em momentos delicados. Um exemplo é o projeto Primeiros Passos, voltado a produtoras que perderam pais ou maridos e precisaram assumir a gestão da fazenda sem experiência prévia.
“Ouvimos muitas histórias de mulheres que não queriam vender a propriedade, mas não sabiam por onde começar”, explicou Iandra. O projeto começou com seis participantes e hoje conta com mais de 80 mulheres, que passam por capacitações básicas em manejo, nutrição e tratos culturais do café.
“O mais bonito é ver a transformação. Elas chegam fragilizadas e saem acreditando que são capazes”, afirmou.