PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS

Sob liderança feminina, cooperativa agropecuária implanta processo de descarbonização

A engenharia ambiental Andreia Pavani liderou plano pioneiro na Coplacana

Sob liderança feminina, cooperativa agropecuária implanta processo de descarbonização

A Coplacana se tornou a primeira cooperativa agropecuária do país a estabelecer metas formais de descarbonização, com redução de 10% das emissões até 2027, 40% até 2035 e neutralidade de carbono em 2040. A estratégia faz parte de um plano estruturado que envolve inventários anuais de gases de efeito estufa e a adoção de práticas sustentáveis no campo.

As informações foram apresentadas por Andreia Pavani, engenheira ambiental e analista de sustentabilidade e meio ambiente da Coplacana, durante entrevista para A Protagonista. Ela está a frente do processo de implantação do plano na cooperativa.

Segundo Andreia, o plano foi desenvolvido a partir de uma iniciativa do Sistema OCB, que convidou dez cooperativas para participar de um projeto-piloto de medição das emissões. “A partir do momento em que a gente mede, a gente consegue se organizar melhor, planejar e traçar metas reais de descarbonização”, afirmou.

A Coplacana realizou o primeiro inventário com base nos dados de 2024 e repetiu o levantamento em 2025. “Com isso, conseguimos estruturar um plano com metas claras e ir atrás dessas metas com responsabilidade e viabilidade econômica”, explicou.

Inventário ajuda produtor a enxergar economia e eficiência

De acordo com Andreia Pavani, o inventário de emissões não tem apenas um papel ambiental, mas também econômico e estratégico para o produtor rural. “O produtor já é sustentável, ele já faz muitas práticas corretas, mas não metrifica. Quando ele passa a medir, consegue visualizar onde está emitindo mais, onde pode reduzir e onde pode economizar”, destacou.

Ela explicou que o levantamento considera os três escopos de emissões, incluindo consumo de energia, logística, frota e processos produtivos. “Mês a mês, o produtor consegue ver onde pode melhorar. Se ele emite menos, automaticamente melhora a viabilidade econômica da propriedade”, disse.

Segundo a analista, a medição organiza a tomada de decisão no campo. “O inventário ajuda o produtor a fazer uma melhor logística, melhorar a gestão e alinhar sustentabilidade com produtividade”, afirmou.

OCB fortalece posicionamento do agro com dados

Andreia ressaltou que o papel da OCB ( Organização das Cooperativas Brasileiras) tem sido fundamental para dar base técnica e credibilidade à agenda de descarbonização do cooperativismo. “O agro sempre foi sustentável, mas não tinha números para mostrar isso. A OCB veio justamente para organizar esses dados e permitir que a gente apresente resultados concretos para governos e para a sociedade”, afirmou.

Segundo ela, a falta de indicadores dificultava o reconhecimento do esforço do setor. “Agora a gente consegue dizer: ‘estão aqui os números e o quanto o agro contribui para reduzir emissões’”, completou.

Créditos de carbono e agricultura regenerativa

A Coplacana também atua em projetos voltados ao mercado de carbono, por meio do programa Procarbono, que já conta com cooperados engajados. “Ainda é um processo em construção, com diferenças importantes entre a realidade brasileira e os modelos internacionais, mas a gente acompanha de perto para levar a melhor informação ao cooperado”, explicou.

Andreia destacou que a dinâmica tropical exige metodologias próprias. “Nossa agricultura é diferente da europeia. A legislação e os cálculos ainda estão sendo ajustados, e a cooperativa tem o papel de orientar o produtor nesse cenário”, disse.

A expectativa, segundo ela, é que no futuro os cooperados possam obter retorno financeiro adicional com créditos de carbono, aliados a práticas de agricultura regenerativa e melhor gestão ambiental.

Mulheres ganham espaço no cooperativismo

Além da agenda ambiental, Andreia Pavani também coordena o Núcleo Mulher da Coplacana, criado há quatro anos com o objetivo de ampliar a participação feminina na gestão das propriedades rurais.

“A mulher tem um olhar mais amplo, mais 360 graus. Ela contribui não só na produção, mas no social, na gestão e no futuro da propriedade”, afirmou.

Segundo ela, a cooperativa promove cursos, dias de campo e capacitações técnicas exclusivas para mulheres. “Quando estão entre elas, se sentem mais à vontade para perguntar, aprender e participar. Isso tem feito muita diferença”, destacou.

Para Andreia, o protagonismo feminino no agro passa pela participação ativa nas decisões do campo. “A ideia é que a mulher seja parceira de verdade na propriedade rural, com segurança para opinar e atuar”, afirmou.

Ao final da entrevista, a analista reforçou que sustentabilidade e cooperativismo caminham juntos. “O agro e o cooperativismo já nascem sustentáveis. Nosso desafio é mostrar isso com dados, organização e impacto real”.