
Produtora de soja há quase quatro décadas, Dulce Ciochetta compartilhou sua trajetória no agronegócio brasileiro durante entrevista ao videocast A Protagonista. Com raízes familiares na agricultura desde a imigração italiana, Dulce reforçou que o agro não foi apenas uma escolha profissional, mas uma herança que atravessa gerações.
Segundo ela, os bisavós chegaram ao Brasil vindos do norte da Itália e deram início à atividade agrícola. No Paraná, a família produziu café, mas enfrentou perdas severas após uma forte geada, o que levou ao abandono da cultura. Em 1985, Dulce e o marido se mudaram para Mato Grosso, inicialmente fora da produção rural. Ela atuava como professora, enquanto ele trabalhava como vendedor de máquinas agrícolas.
Foi apenas em 1989 que o casal arrendou 200 hectares em Campo Novo do Parecis (MT) e passou a produzir soja. “O agro nunca sai da gente. É uma atividade cheia de desafios, mas também de aprendizado, de construção de legado e de impacto positivo na vida das pessoas”, afirmou.
Sustentabilidade e agricultura regenerativa
Durante a entrevista, Dulce destacou que a sustentabilidade sempre esteve presente na gestão da propriedade. Segundo ela, práticas hoje associadas à agricultura regenerativa já eram adotadas antes mesmo do conceito ganhar visibilidade.
“O nome não importa. O que importa é o caminho. Ou você cuida do solo e da água, ou não existe agricultura”, afirmou. Atuando no bioma Cerrado, Dulce ressaltou que a baixa fertilidade natural do solo exige manejo técnico constante, construção de matéria orgânica e adoção de novas tecnologias para garantir produtividade.
Ela destacou que a propriedade Morena Agro já recebeu prêmios nacionais e internacionais pelas práticas sustentáveis adotadas ao longo dos anos, mas reforçou que o Brasil possui inúmeros exemplos de agricultores que conciliam produção e conservação ambiental.
Segurança alimentar e qualidade dos alimentos
Para a produtora, o protagonismo do Brasil como grande fornecedor de alimentos vai além do volume produzido. “A gente fala muito em segurança alimentar, mas também precisa olhar para a nutrição e para a forma como esse alimento é produzido e entregue ao consumidor”, avaliou.
Segundo Dulce, a agricultura brasileira se tornou uma referência mundial justamente por unir produtividade, sustentabilidade e qualidade, consolidando o país como um dos principais cases globais do setor.
Saúde mental, sororidade e educação financeira
A entrevista também abordou temas como saúde mental no campo, sororidade e a importância da educação financeira. Dulce avaliou que o excesso de preocupações, clima, mercado, política, custos e mudanças regulatórias, têm sobrecarregado produtores e colaboradores, independentemente do gênero.
Ela defendeu que cuidar das pessoas faz parte da gestão rural e que ajudar colaboradores endividados, por exemplo, é uma forma de fortalecer o ambiente de trabalho e a produtividade. “Se o colaborador não está bem, ele não consegue entregar. Isso também é cuidar”, afirmou.
Por fim, Dulce chamou atenção para o consumo consciente e a relação entre educação financeira e sustentabilidade. “A gente fala muito de sustentabilidade, mas precisa olhar para o consumismo, para o lixo que gera e para a pegada de carbono. Senão, vira discurso vazio”,