
No início da manhã, ainda com o orvalho sobre as folhas, Renata caminha entre os pés de café na fazenda da família, em Passos, no sudoeste de Minas Gerais. O silêncio da lavoura contrasta com o que ela viveu anos atrás. Hoje, esse cenário representa equilíbrio. Mas nem sempre foi assim.
Há quatro anos, ela mal conseguia sair do quarto.
Enfermeira de formação, com mestrado, doutorado e dois pós-doutorados, Renata construiu uma trajetória acadêmica sólida e chegou a conquistar o primeiro lugar em um concurso público federal. Apesar da origem rural, o campo não fazia parte dos seus planos.
O café entrou em sua vida por insistência do marido, que decidiu investir na cultura cerca de oito anos atrás. Na época, ela pouco se envolveu. A conexão com a terra só viria mais tarde em um dos momentos mais difíceis de sua vida.
Em meio a um quadro de depressão e crises de pânico, Renata voltou a morar com os pais, incapaz de ficar sozinha. Foi então que ouviu do pai um convite simples, mas decisivo.
“Por que você não vem cuidar do seu café?”
A proposta parecia distante. Ainda assim, ela aceitou. Na primeira caminhada pela lavoura, algo mudou.
“Ele foi me mostrando as plantas, explicando do jeito dele. E aquilo foi me trazendo uma paz… parecia que aqueles pés de café estavam me esperando há muito tempo.”
A rotina no campo passou a fazer parte dos seus dias. Entre aprendizados simples e o contato com a natureza, Renata começou a reconstruir sua saúde emocional.
O que começou como um refúgio ganhou outro significado quando ela percebeu algo incomum na bebida produzida ali.
“Eu disse para o meu marido: esse café tem um gosto diferente na xícara.”
A curiosidade levou à primeira análise sensorial. O resultado surpreendeu: 87,75 pontos, classificação que coloca o produto na categoria de cafés especiais, reconhecidos internacionalmente pela alta qualidade.
Sem experiência prévia no segmento, o casal buscou informação e apoio técnico. A primeira safra analisada foi totalmente exportada para o Japão, um dos mercados mais exigentes do mundo.
No ciclo seguinte, a qualidade se confirmou: 86,5 pontos em nova avaliação, desta vez em outro talhão da propriedade.
A busca por conhecimento levou o casal à Associação de Cafeicultores do Sudoeste de Minas Gerais, onde passaram a se integrar ao setor e compreender melhor o mercado de cafés especiais.
Foi nesse contexto que decidiram participar de um concurso regional de qualidade.
Sem grandes expectativas, enviaram uma amostra. No dia da premiação, entre dezenas de participantes, o nome da fazenda demorou a aparecer.
“Quando ouvimos ‘Fazenda São João’, nem acreditamos que era a nossa.”
O resultado: terceiro lugar na categoria de café natural.
A conquista marcou o início de uma nova fase. A produção ganhou identidade com a criação da marca Café Grão Negro, ampliando a comercialização e a visibilidade.
Hoje, o café da propriedade já foi apresentado em rodadas de negócios e eventos internacionais, incluindo ações em Dubai, reforçando o alcance global da produção brasileira de cafés especiais.
Localizada em uma das regiões mais tradicionais da cafeicultura nacional, a fazenda segue em expansão, com novos plantios e foco contínuo em qualidade.
O Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo, responsável por cerca de um terço da produção global. Nesse cenário, o segmento de cafés especiais cresce de forma consistente, agregando valor e posicionando produtores em mercados mais exigentes.
Para Renata, no entanto, o maior resultado não está nos números.
“Eu encontrei a minha paz ali, na terra.”
Hoje, ela concilia os papéis de mãe, esposa e produtora rural. E carrega uma certeza construída na prática: recomeçar é possível.
A mulher que um dia não conseguia sair do quarto agora caminha entre lavouras que ajudou a transformar e que, de certa forma, também a transformaram.