VOZES DO CAMPO

Bem-estar animal: por que cuidar melhor do rebanho também aumenta a produtividade

A veterinária e pecuarista Camila Bertão explica como o respeito às cinco liberdades dos animais impacta diretamente a eficiência da pecuária

Bem-estar animal: por que cuidar melhor do rebanho também aumenta a produtividade

O bem-estar animal é um dos pilares da produção pecuária moderna. No entanto, ainda é um tema que, muitas vezes, acaba ficando em segundo plano dentro das propriedades rurais. No Vozes do Campo, a veterinária e pecuarista Camila Bertão, do Rio Grande do Sul, explica por que cuidar do bem-estar do rebanho também significa produzir melhor.

Camila é responsável pela Fazenda Overas, localizada em Candelária (RS), e lembra que, tradicionalmente, a pecuária costuma se apoiar em três pilares principais: genética, sanidade e nutrição.

“Quando falamos em produção de bovinos de corte, pensamos sempre no tripé da produção animal, que engloba genética, sanidade e nutrição. Mas muitas vezes esquecemos do bem-estar animal”, afirma.

Segundo ela, ignorar esse fator pode gerar perdas silenciosas dentro do sistema produtivo, muitas vezes difíceis de medir diretamente.

As cinco liberdades do bem-estar animal

Um dos conceitos mais importantes dentro do manejo responsável é o das cinco liberdades dos animais. Elas envolvem aspectos fundamentais para garantir condições adequadas de vida e produção.

Entre elas estão as liberdades nutricional, sanitária, ambiental, comportamental e psicológica.

Quando essas condições não são atendidas, os animais passam a apresentar níveis elevados de estresse. Isso provoca alterações fisiológicas que afetam diretamente a saúde do rebanho.

“Quando não suprimos essas liberdades dentro da propriedade, os animais apresentam níveis elevados de cortisol”, explica Camila.

O aumento desse hormônio do estresse compromete o sistema imunológico, tornando os animais mais suscetíveis a doenças e aumentando as perdas dentro do sistema de produção, especialmente entre os animais mais jovens.

Além dos impactos sanitários, a falta de bem-estar também gera problemas práticos no dia a dia da propriedade.

Animais machucados, contusões e lesões são ocorrências mais comuns em sistemas onde o manejo não prioriza o conforto e o comportamento natural do rebanho. Outro ponto destacado pela pecuarista é o risco maior de acidentes de trabalho envolvendo os colaboradores.

Entre as perdas mais fáceis de medir estão justamente aquelas que aparecem no momento do abate. “Contusões e lesões acabam sendo descartadas no frigorífico, e essa perda nós sentimos diretamente no bolso”, ressalta.

Mudança de mentalidade no campo

Para Camila Bertão, melhorar o bem-estar animal exige uma mudança cultural dentro das propriedades. Mais do que uma prática isolada, o tema precisa ser incorporado à gestão da fazenda.

Ela destaca que o envolvimento da equipe é essencial nesse processo. “É importante que produtores, gerência e equipe de campo consigam mudar essa mentalidade de que o bem-estar animal não é importante”, afirma.

Treinamentos e capacitação dos colaboradores também são fundamentais para desenvolver um olhar mais atento sobre o comportamento dos animais e identificar problemas que podem estar gerando perdas produtivas.

Ao adotar práticas de manejo mais adequadas, o produtor não apenas melhora a qualidade de vida dos animais, mas também fortalece a eficiência do sistema de produção. No fim das contas, conclui a veterinária, cuidar bem do rebanho é também uma forma de produzir melhor.