
Cuidar da casa, da família, da propriedade e ainda participar ativamente da produção agropecuária. Essa é a rotina de milhares de mulheres do campo, que frequentemente deixam a própria saúde em segundo plano. Foi justamente para mudar essa realidade que nasceu o Semear Cuidar, iniciativa que leva informação, prevenção e acesso a exames para mulheres rurais em diferentes regiões do país.
Uma das parceiras do projeto é a ONG Orienta Vida, organização social criada em 1999 com foco no empoderamento feminino. Inicialmente voltada à capacitação profissional e geração de renda por meio do artesanato, a entidade ampliou sua atuação ao perceber que muitas mulheres em situação de vulnerabilidade também enfrentavam dificuldades para acessar informações básicas sobre saúde preventiva.
Foi dessa experiência que nasceu, em 2009, o programa Pense Rosa, voltado à conscientização sobre o câncer de mama. Alguns anos depois, a iniciativa passou a oferecer também exames preventivos, ampliando o acesso de mulheres que, por questões geográficas, econômicas ou sociais, não conseguiam realizar o acompanhamento recomendado.
Em 2023, a ONG uniu esforços com a Comissão Semeadoras do Agro, da Faesp/Senar-SP, para criar o Semear Cuidar, levando esse trabalho diretamente às comunidades rurais.
Segundo Ana Eliza Angelieri, representante da Orienta Vida, o projeto vai muito além da prevenção ao câncer.
“Quando a gente fala em empoderar uma mulher, são muitas frentes. Existe o suporte emocional, o econômico, a autonomia financeira. Mas, se a mulher não estiver saudável, ela também não consegue desempenhar todos os outros papéis.”
Informação e acesso caminham juntos
O trabalho começou com ações voltadas à prevenção do câncer de mama, mas foi ampliado ao longo dos anos. Hoje, também aborda temas como câncer do colo do útero, menopausa, saúde dos jovens e câncer de pele, este último especialmente relevante para quem trabalha diariamente exposto ao sol.
As palestras utilizam linguagem acessível e são direcionadas à realidade das mulheres do campo.
Além da informação, o projeto busca garantir acesso aos exames preventivos, considerado um dos principais desafios para quem vive distante dos grandes centros urbanos.
Rotina intensa ainda é principal obstáculo
Na avaliação de Ana Eliza, o maior desafio não é apenas a distância dos serviços de saúde, mas a própria rotina feminina.
“Nós mulheres acumulamos muitas funções. A mulher do campo cuida da casa, dos filhos e ainda tem um papel ativo na produção agropecuária. Muitas vezes, ela acaba deixando a própria saúde para depois.”
Ela afirma que a concorrência entre os afazeres do dia a dia e o autocuidado faz com que muitas mulheres adiem exames importantes.
Outro obstáculo é a desinformação. “Ainda existem muitos preconceitos. Algumas mulheres têm medo dos exames, acreditam que vão sentir dor ou pensam que, se procurarem o médico, vão encontrar alguma doença. Por isso, levar informação é fundamental para quebrar esses tabus.”
Mulher do campo ainda busca reconhecimento
Além da saúde, Ana Eliza destaca que o projeto também trabalha o fortalecimento do protagonismo feminino dentro do agronegócio.
Segundo ela, apesar dos avanços recentes, a mulher rural ainda enfrenta um ambiente tradicionalmente conservador.
“Hoje elas se sentem muito mais potentes, muito mais seguras e, principalmente, reconhecendo o papel estratégico que sempre tiveram dentro da propriedade e da família.”
Ela observa que esse processo de valorização vem sendo impulsionado pelo trabalho desenvolvido junto às Semeadoras do Agro, mas acredita que ainda há um longo caminho pela frente.
Diagnóstico precoce salva vidas
Ao longo dos anos de atuação, uma das maiores motivações para continuar o trabalho é acompanhar mulheres que tiveram o câncer identificado em estágio inicial.
Para Ana Eliza, cada diagnóstico precoce representa a oportunidade de preservar famílias inteiras.
“Muitas pessoas ficam tristes quando descobrimos um caso de câncer. Eu digo o contrário: graças a Deus encontramos essa mulher a tempo. Ela terá acompanhamento, tratamento e grandes chances de cura.”
Segundo ela, o projeto atua justamente no momento em que a prevenção faz toda a diferença.
“Nós trabalhamos em uma linha muito tênue entre saúde e doença. Quando conseguimos diagnosticar cedo, evitamos que uma mãe, uma filha, uma irmã ou uma avó seja perdida para uma doença que poderia ser tratada.”
Ela reforça que exames preventivos continuam sendo a principal ferramenta para reduzir a mortalidade por câncer.
“Quando o câncer de mama é diagnosticado precocemente, as chances de cura chegam a cerca de 95%. No câncer do colo do útero, esse índice pode alcançar praticamente 100%. Vale a pena se priorizar e incentivar outras mulheres a fazerem o mesmo.”