
A alfabetização continua sendo um dos principais desafios da educação brasileira, especialmente no meio rural. Segundo dados do IBGE, mais de 9 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais ainda não sabem ler e escrever. No campo, essa realidade limita o acesso a serviços, tecnologias, crédito e oportunidades de trabalho.
Para enfrentar esse cenário, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de São Paulo (Senar-SP) mantém, desde 1997, um programa de alfabetização voltado a jovens e adultos da zona rural. Desde sua reformulação, em 2000, a iniciativa já implantou mais de 2,3 mil salas de aula, atendeu mais de 48 mil alunos e alfabetizou cerca de 36 mil pessoas no estado.
Em entrevista ao programa A Protagonista, a presidente das Semeadoras do Agro da Faesp/Senar-SP, Juliana Farah, afirmou que o projeto vai muito além do ensino da leitura e da escrita.
“Esse programa é muito ligado a resgatar a dignidade do homem e da mulher do campo”, destacou.
Programa foi ampliado para aumentar resultados
Criado em parceria com o então Ministério do Trabalho, o programa começou com carga horária de 180 horas. Após avaliações, o Senar-SP ampliou o curso para 300 horas, distribuídas ao longo de aproximadamente sete meses, entre abril e outubro.
Segundo Juliana Farah, o conteúdo é adaptado à realidade de jovens e adultos que não tiveram acesso à escola na infância, priorizando situações do cotidiano e a autonomia dos participantes.
Além da alfabetização, o programa busca reduzir o isolamento social causado pelo analfabetismo.
“Muitas pessoas têm vergonha de dizer que não sabem ler e escrever. O curso ajuda a recuperar a autoestima e a confiança”, afirmou.
Mulheres são maioria entre os participantes
De acordo com Juliana Farah, as mulheres representam a maior parte das matrículas no programa. Entre 2011 e 2026, mais de 10,4 mil mulheres participaram da iniciativa.
Segundo ela, muitas procuram a alfabetização para conquistar mais autonomia, acompanhar a educação dos filhos e acessar novas oportunidades profissionais.
A dirigente destaca ainda que a alfabetização impacta diretamente a qualidade de vida das famílias rurais.
“É importante para a própria vida e também para a família”, ressaltou.
CNH está entre os principais objetivos
Entre as conquistas mais citadas pelos participantes está a possibilidade de obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), já que a alfabetização é requisito para o processo de habilitação.
Além disso, muitos alunos passam a utilizar aplicativos de celular, realizar operações bancárias, ler receitas médicas e acessar serviços públicos sem depender de terceiros.
Educação também fortalece saúde e inclusão social
Segundo Juliana Farah, o programa também funciona como uma rede de apoio para os participantes.
Além das aulas, os alunos recebem orientações sobre saúde, higiene, saúde mental e qualidade de vida. A convivência em grupo ajuda a reduzir o sentimento de vergonha e incentiva mudanças de comportamento, inclusive entre pessoas que enfrentam problemas relacionados ao alcoolismo e à dependência química.
Inscrições devem ser feitas no início do ano
As aulas são presenciais e exigem frequência mínima de 80% para certificação.
Segundo o Senar-SP, os interessados devem procurar o sindicato rural de seu município entre janeiro e fevereiro, período em que são formadas as turmas para o início das aulas, previsto para abril.
Juliana Farah reforçou que nunca é tarde para voltar a estudar. “Não tenham vergonha. Procurem o sindicato rural do seu município. Tenho certeza de que esse será um passo importante para transformar a vida de vocês.”