
O agronegócio brasileiro passa por um processo de renovação, com crescimento da participação de jovens no setor. Ainda assim, os dados mostram que o desafio da sucessão rural segue relevante.
De acordo com o Censo Agropecuário do IBGE, apenas cerca de 5% dos produtores rurais no Brasil têm menos de 30 anos. Ao mesmo tempo, a participação de produtores com mais de 65 anos vem aumentando, evidenciando o envelhecimento da população no campo.
Apesar desse cenário, há interesse da juventude em permanecer na atividade rural. Estudos indicam que cerca de 50% dos jovens que vivem no campo desejam continuar no agro e assumir a gestão das propriedades familiares.
Capacitação impulsiona permanência dos jovens no agro
A formação voltada à juventude rural tem ganhado protagonismo como estratégia para estimular essa permanência. Levantamentos do setor apontam que a participação de jovens entre 20 e 35 anos no campo cresceu de 15% para 27% nos últimos anos, impulsionada principalmente pela tecnologia e pelo empreendedorismo.
Em São Paulo, uma das iniciativas nesse sentido é o programa Jovem Empreendedor do Agro, desenvolvido pelo Sistema Faesp/Senar-SP. A ação já atendeu mais de 46 mil jovens e está presente em mais de 100 municípios do estado.
Programa aposta em visão de negócio e inovação
Segundo Priscila Levorin, técnica do Senar-SP e responsável pelo programa, a iniciativa surgiu a partir da evolução do antigo projeto Jovem Agricultor do Futuro, adaptando-se às mudanças no comportamento dos jovens e às transformações do setor.
“O objetivo é mostrar que o agro vai muito além do trabalho braçal. Existe um universo de oportunidades, que envolve tecnologia, inovação e empreendedorismo”, afirma.
O programa é voltado para jovens de 14 a 17 anos, preferencialmente filhos de trabalhadores rurais. Para participar, é necessário procurar o sindicato rural da região, responsável pela execução local do projeto.
Formação inclui tecnologia, gestão e comportamento
Com duração de oito meses, o curso combina conteúdos técnicos e comportamentais. Entre os temas abordados estão inovação, meio ambiente, gestão, comunicação e uso de tecnologia no campo.
A proposta é ampliar a visão dos participantes sobre o setor e ajudá-los a identificar oportunidades dentro da própria região.
“A gente trabalha tanto as chamadas hard skills, ligadas à tecnologia, quanto as soft skills, como comunicação e comportamento. Isso abre possibilidades dentro e fora da propriedade rural”, explica Priscila.
Impacto vai além da formação profissional
De acordo com a técnica, os efeitos do programa são percebidos tanto na trajetória profissional quanto no desenvolvimento pessoal dos jovens.
“Muitos relatam que o curso serviu como um norte para a carreira. Alguns conseguem o primeiro emprego, outros ingressam em cursos superiores, como agronomia”, destaca.
Atualmente, cerca de 150 turmas são realizadas por ano, alcançando mais de 100 municípios paulistas.
A sucessão rural é um dos pontos centrais da iniciativa. Segundo Priscila, o processo ainda enfrenta desafios, como questões financeiras, emocionais e até resistência dentro das famílias.
“O programa planta essa sementinha no jovem, mostrando novas possibilidades dentro da propriedade. Isso ajuda a tornar a sucessão mais consciente e estruturada”, afirma.
O Senar-SP também conta com um programa específico voltado à sucessão familiar, reforçando a importância do planejamento nesse processo.
Presença feminina cresce no campo
Outro destaque é o aumento da participação feminina no agro. Segundo Priscila, o número de meninas no programa já é equivalente ao de meninos, refletindo uma mudança no perfil do setor.
“A gente vê cada vez mais jovens mulheres assumindo protagonismo e liderando iniciativas no campo”, afirma.
Com o avanço da tecnologia e das novas formas de produção, o campo se torna cada vez mais atrativo para os jovens. Ainda assim, especialistas apontam que ampliar o acesso à capacitação e fortalecer políticas de incentivo será fundamental para garantir a sucessão rural.
Nesse cenário, iniciativas como o Jovem Empreendedor do Agro ganham importância ao preparar uma nova geração mais qualificada, conectada e pronta para assumir o futuro da produção agrícola no país.