NEGÓCIOS EM FAMÍLIA

Diálogo e planejamento são essenciais para o êxito da sucessão familiar no agro, afirma especialista

Para Marielly Biff, sucessão deve ser encarada como um processo de construção gradual e transferência de conhecimento

Diálogo e planejamento são essenciais para o êxito da sucessão familiar no agro, afirma especialista

A sucessão familiar continua sendo um dos maiores desafios dentro das propriedades rurais brasileiras. A avaliação é de Marielly Biff, diretora da Agrogê Consultoria e autora do livro Caminhos da Sucessão, que defende a importância do planejamento e, principalmente, do alinhamento entre os membros da família para garantir a continuidade dos negócios no campo.

Com trajetória ligada ao agronegócio desde a infância, Marielly afirma que sua história pessoal influenciou diretamente sua atuação profissional. Segundo ela, a vivência de uma sucessão mal conduzida dentro da própria família revelou um problema recorrente em diversas propriedades rurais: conflitos patrimoniais, rupturas familiares e ausência de preparo para a transição de gestão.

De acordo com a especialista, embora o debate sobre sucessão tenha avançado nos últimos anos, ainda há resistência por parte de muitos fundadores. Isso ocorre porque o tema frequentemente é associado à perda de poder ou à própria finitude. Para Marielly, essa percepção precisa mudar. Ela defende que a sucessão deve ser encarada como um processo de construção gradual, com transferência de conhecimento e responsabilidades ao longo do tempo.

Planejamento vai além da divisão de patrimônio

Um dos pontos destacados por Marielly Biff é que a sucessão não pode se limitar à organização patrimonial. Segundo ela, o componente emocional exerce papel decisivo no sucesso ou fracasso da transição. Famílias que não alinham expectativas, interesses e papéis dentro do negócio tendem a enfrentar dificuldades, independentemente do modelo jurídico adotado.

A especialista ressalta que o preparo emocional dos herdeiros e do sucedido é etapa essencial antes mesmo da implementação de estruturas de governança. A clareza sobre o interesse dos filhos em permanecer na atividade rural, bem como a definição de regras e responsabilidades, contribui para uma gestão mais eficiente e sustentável no longo prazo.

Outro aspecto crítico envolve a saúde financeira do negócio. Marielly alerta que não é possível suceder uma operação fragilizada economicamente. Sem rentabilidade e organização, o processo sucessório pode resultar apenas na transferência de dívidas e problemas para a próxima geração.

Falta de liquidez pode comprometer continuidade

A questão financeira também aparece como um dos principais gargalos enfrentados por famílias rurais. Segundo Marielly, é comum que produtores acumulem elevado patrimônio imobilizado, mas enfrentem baixa liquidez em momentos decisivos, como abertura de inventários ou reorganizações societárias.

Para mitigar esse risco, a especialista defende o uso de ferramentas de planejamento patrimonial e financeiro, como doações graduais, formação de reservas e maior transparência sobre fluxo de caixa. A estratégia, segundo ela, evita decisões precipitadas, como a venda de ativos produtivos para cobertura de despesas inesperadas.

Além disso, Marielly destaca a importância da conscientização de todos os membros da família sobre os números do negócio. A ausência de informações claras pode levar herdeiros a subestimar o valor da operação ou superestimar passivos, ampliando tensões em momentos de transição.

Pandemia acelerou discussões sobre sucessão

Na avaliação da consultora, a pandemia representou um ponto de inflexão para muitas famílias do agro. A perda repentina de gestores e fundadores trouxe à tona a vulnerabilidade de negócios sem planejamento sucessório, estimulando maior interesse pelo tema.

Segundo ela, o movimento recente mostra mudança de postura tanto por parte de produtores quanto de herdeiros. O diálogo, antes evitado em muitas propriedades, passou a ser visto como ferramenta estratégica de preservação patrimonial e empresarial.

Diálogo é o primeiro passo para uma sucessão bem-sucedida

Como orientação às famílias rurais, Marielly Biff enfatiza que o processo sucessório deve começar com conversas francas e estruturadas. Entender os objetivos individuais, as ambições futuras e a capacidade de crescimento do negócio são etapas fundamentais para evitar conflitos e garantir a continuidade da atividade.

Para a especialista, preparar a família como um todo, e não apenas um sucessor específico, aumenta a resiliência da empresa rural. Ela defende ainda a formação de uma mentalidade de sócios, em vez de herdeiros, como elemento-chave para o fortalecimento da governança e longevidade dos negócios no agronegócio.