A sucessão familiar no agro nem sempre segue roteiro planejado. Em muitas propriedades, ela surge de forma orgânica, movida por circunstâncias e decisões pessoais. Foi exatamente assim com a produtora de cana Silvia Beltrame, que assumiu papel ativo na gestão da fazenda aos 23 anos.
Hoje, aos 26, Silvia atua ao lado do pai, acumulando funções administrativas e de produção. A entrada definitiva no negócio, segundo ela, não foi programada, mas nasceu de um incômodo ao observar as dificuldades enfrentadas pela família.
“Tudo começou com um incômodo meu de querer ajudar meu pai. Eu via que a parte financeira e administrativa era a maior dor dele”, relata.
Paixão antiga, decisão recente
Apesar de crescer no ambiente rural, Silvia conta que o caminho para o campo não parecia, inicialmente, inevitável. Desde pequena, acompanhava a rotina da lavoura, mas recebia incentivos para buscar outras áreas.
“Meu pai sempre falava para eu pensar em outra coisa, seguir talvez para a área da saúde. Mas minha paixão sempre esteve no campo”, afirma.
A formação acadêmica veio na biologia, área que mantém forte conexão com sua afinidade por plantas e animais. A ideia original era seguir carreira em pesquisa, com foco na cana-de-açúcar.
O cenário, porém, mudou com a pandemia. A paralisação de atividades e as incertezas profissionais acabaram abrindo espaço para uma imersão maior na propriedade.
“No campo, a gente podia trabalhar. Foi ali que comecei a me envolver de fato com a produção”, lembra.
Aprendizado e apoio da cooperativa
Sem formação agronômica, Silvia enfrentou o desafio de compreender os aspectos técnicos da atividade. O processo exigiu estudo, adaptação e busca por conhecimento.
Um dos pontos de virada, segundo ela, foi a participação no Núcleo Jovem da Coplacana, experiência que ampliou sua visão de gestão e inovação.
“O Núcleo Jovem fez total diferença na minha caminhada. Foi fundamental para eu chegar onde estou hoje”, destaca.
Atualmente, ela divide as decisões estratégicas com o pai, mantendo uma atuação conjunta na condução do negócio.
Representatividade e confiança
Inserida em um ambiente historicamente masculino, Silvia afirma que o contato com outras mulheres do setor teve papel importante na consolidação de sua confiança.
Na própria propriedade, as referências sempre foram homens. A percepção começou a mudar ao ampliar o círculo de convivência dentro do agro.
“Quando saio da bolha e encontro outras mulheres em posições de liderança, isso inspira. Passamos a nos enxergar de igual para igual”, diz.
Tecnologia como aliada
A modernização da propriedade tornou-se uma das bandeiras da jovem produtora. Para ela, inovação no campo exige equilíbrio entre avanço tecnológico e adaptação geracional.
“É algo novo e, muitas vezes, assustador. Mas, quando entendido como facilitador, muda completamente a rotina”, explica.
Ferramentas básicas de gestão, como planilhas eletrônicas, passaram a fazer parte do dia a dia. Tecnologias mais recentes também foram incorporadas gradualmente.
O uso de drones é um exemplo citado pela produtora. A adoção não ocorreu de imediato, mas evoluiu conforme a familiarização com a ferramenta.
Hoje, a fazenda também opera com tratores mais modernos e recursos de GPS, buscando maior precisão nas operações.
Sustentabilidade e gestão de risco
Além da tecnologia, Silvia ressalta a importância de práticas ligadas à organização e conformidade ambiental. Entre os cuidados adotados estão gestão de resíduos e prevenção de incêndios.
“Fazer o básico bem feito já traz tranquilidade. Se uma fiscalização chegar, sabemos que está tudo em ordem”, afirma.
Conselho às novas gerações
Ao falar com jovens interessadas em ingressar no agro, Silvia enfatiza o papel transformador das novas perspectivas dentro das propriedades familiares.
“As dificuldades existem, mas não são nada perto do que podemos agregar. A mudança precisa começar agora”, defende.
Segundo ela, o setor demandará cada vez mais diversidade de olhares e capacidade de adaptação. “A semente precisa ser plantada hoje para que o futuro do agro seja diferente”, conclui.