
A competitividade da cadeia sucroenergética passa cada vez mais pela capacidade de transformar estratégia em resultados no campo. Em um cenário marcado por custos elevados, eventos climáticos extremos e pressão por maior produtividade, investir apenas em tecnologia já não é suficiente. A avaliação é de Fabiana Ascêncio, especialista em projetos, inovação e eficiência operacional no agronegócio
Segundo a especialista, o setor precisa alinhar planejamento, execução e gestão para garantir retorno dos investimentos. “O resultado só acontece quando existe uma estratégia bem definida, um bom planejamento e, principalmente, disciplina na execução”, afirma.
Execução é o maior desafio da gestão
Embora a eficiência operacional seja frequentemente associada à execução das atividades, Fabiana ressalta que muitos gargalos surgem antes mesmo de as operações chegarem ao campo.
Na avaliação dela, definir prioridades, escolher corretamente onde investir e garantir velocidade na tomada de decisão são fatores que influenciam diretamente a rentabilidade das usinas e propriedades.
Um exemplo citado é a renovação dos canaviais. Segundo a especialista, ampliar áreas sem avaliar a capacidade operacional, a disponibilidade de máquinas ou a janela ideal de plantio pode transformar um investimento estratégico em aumento de custos.
“Não basta ter uma boa estratégia. É preciso que ela seja executável e acompanhada no dia a dia”, destaca.
Inteligência artificial já faz parte da rotina do setor
Para Fabiana, a inteligência artificial e outras ferramentas digitais já são realidade na cadeia da cana-de-açúcar, mas seu verdadeiro potencial está na capacidade de acelerar decisões.
Ela cita como exemplo a digitalização de processos simples, como checklists de máquinas, que reduziram o tempo para identificar necessidades de manutenção e aumentaram a eficiência operacional.
Além disso, modelos preditivos vêm sendo utilizados para melhorar as estimativas de safra, enquanto operações autônomas tendem a ganhar espaço nos próximos anos.
“A tecnologia faz diferença quando transforma informação em decisão rápida e assertiva”, afirma.
Diagnóstico evita cortes que comprometem produtividade
Ao comentar a busca por maior rentabilidade, a especialista recomenda que produtores e usinas iniciem qualquer processo de melhoria com um diagnóstico detalhado da operação.
Segundo ela, identificar corretamente onde estão as perdas permite definir quais investimentos geram maior retorno financeiro e produtivo.
Fabiana relata a experiência em um projeto de recuperação da produtividade de um grupo de quatro usinas. Inicialmente, acreditava-se que os problemas eram exclusivamente técnicos, mas o diagnóstico revelou falhas de planejamento, gestão de pessoas e acompanhamento das operações.
Após três anos de trabalho, a produtividade média passou de 55 para mais de 80 toneladas por hectare, resultado atribuído ao monitoramento contínuo e aos ajustes na execução.
Clima, custos e conectividade estão entre os principais desafios
Entre os principais obstáculos enfrentados pelo setor sucroenergético, Fabiana destaca a variabilidade climática, a pressão sobre os custos de produção, a dificuldade em executar operações no momento correto e a falta de conectividade em diversas regiões produtoras.
Segundo ela, a irrigação tem se consolidado como uma ferramenta importante para reduzir os impactos climáticos, mas sua implantação deve considerar a realidade de cada propriedade para garantir retorno econômico.
A especialista também alerta para os riscos de cortes generalizados de custos em momentos de crise.
“Mais importante do que decidir o que cortar é saber o que não pode ser reduzido. Cortes em tecnologia, produtividade ou qualificação podem gerar economia no curto prazo, mas comprometem os resultados futuros”, explica.
Pessoas seguem no centro da transformação
Apesar do avanço das tecnologias, Fabiana afirma que as pessoas continuam sendo o principal fator para transformar inovação em produtividade.
Segundo ela, equipes capacitadas, engajadas e alinhadas aos objetivos da empresa fazem a diferença na implementação das estratégias.
A especialista também defende uma participação cada vez maior das mulheres em cargos de liderança no setor sucroenergético.
Embora elas já ocupem cerca de 30% das posições de liderança no agronegócio, na cadeia da cana esse percentual ainda gira em torno de 20%, indicando espaço para maior representatividade feminina.
Gestão, inovação e sustentabilidade lideram tendências
Ao olhar para o futuro da cadeia da cana, Fabiana aponta três pilares que deverão orientar o desenvolvimento do setor: gestão, inovação e sustentabilidade.
Ela destaca o crescimento de novas fontes de energia, como o biometano, a expansão do etanol de milho e o avanço das operações autônomas, além da necessidade de uma gestão cada vez mais orientada por dados.
Segundo a especialista, o Brasil ainda possui amplo potencial para ampliar a produção de cana-de-açúcar, tanto por ganhos de produtividade quanto pela expansão para novas áreas viáveis com o apoio da tecnologia.
“O futuro do setor dependerá cada vez mais de líderes capazes de integrar tecnologia, pessoas e execução. No agro, perder o timing significa perder produtividade”, conclui.