SITUAÇÃO DE RISCO

Isolamento dificulta denúncia de violência contra a mulher no meio rural

De acordo com a promotora Fabiola Sucasas, no meio rural, o cenário tende a ser mais complexo devido à distância de serviços públicos

Isolamento dificulta denúncia de violência contra a mulher no meio rural

A violência doméstica segue como um problema recorrente no Brasil e também atinge mulheres que vivem no meio rural. Em 2024, mais de 21 milhões de brasileiras relataram ter sofrido algum tipo de violência. Em 32,4% dos casos, as agressões foram cometidas por parceiros ou ex-parceiros, geralmente dentro de casa.

No estado de São Paulo, mais de 100 mil atendimentos foram realizados a mulheres vítimas de violência no mesmo período.

Para a promotora de Justiça Fabiola Sucasas, a violência não se limita a agressões físicas e pode começar com comportamentos recorrentes no dia a dia.

“Humilhação, isolamento, controle e ofensas já configuram uma situação de violência”, afirmou.

Ela destaca que a dificuldade em reconhecer esses sinais é um dos principais fatores que atrasam a busca por ajuda.

“O silêncio é um dos principais obstáculos. Muitas mulheres não identificam que estão em situação de risco”, disse.

Isolamento agrava situação no campo

No meio rural, o cenário tende a ser mais complexo devido à distância de serviços públicos.

A promotora aponta que o isolamento geográfico pode dificultar o acesso a delegacias, unidades de saúde e redes de apoio.

“O isolamento também é uma forma de violência. Ele reduz as possibilidades de a mulher buscar ajuda”, explicou.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que cerca de 50% dos feminicídios ocorrem em municípios com menos de 100 mil habitantes, onde a oferta de serviços especializados é menor.

A promotora ressalta que o registro de ocorrência e a solicitação de medidas protetivas são etapas importantes, mas não suficientes.

“Não basta pedir a medida protetiva. É necessário que haja monitoramento e estrutura para garantir que ela seja cumprida”, afirmou.

Segundo ela, em áreas rurais, esses mecanismos ainda não estão disponíveis de forma ampla.

Mudanças na legislação

Fabiola Sucasas afirma que houve avanços no tratamento jurídico da violência contra a mulher nos últimos anos.

A Lei Maria da Penha passou a reconhecer a violência doméstica como violação de direitos humanos e ampliou instrumentos de proteção.

Entre as mudanças, está o reconhecimento da palavra da vítima como elemento suficiente para a concessão de medidas protetivas.

A promotora destaca que a informação é um dos principais instrumentos de proteção. Ela orienta que mulheres em situação de risco busquem construir um plano de segurança com apoio de profissionais, como equipes do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).

Entre as medidas, estão a criação de uma rede de apoio, orientação de familiares e definição de estratégias para situações de emergência.

“É necessário planejamento. Um erro pode colocar a vida da mulher em risco”, afirmou.

Como denunciar violência contra a mulher

Mulheres em situação de violência, ou pessoas que conheçam casos, podem buscar ajuda por meio da Central de Atendimento à Mulher. O atendimento é feito pelo telefone 180, serviço gratuito do governo federal, coordenado pelo Ministério das Mulheres.

O canal oferece orientação sobre direitos, acolhimento às vítimas e informações sobre serviços de apoio disponíveis na região. Também é possível registrar denúncias, que são encaminhadas aos órgãos competentes para apuração.