PATRIMÔNIO

Gestão no agro: especialista alerta para riscos da sucessão não planejada

Ana Laura Gonçalves Leite explica como testamento, holding e seguro de vida podem evitar perdas financeiras e preservar o legado familiar no campo

Gestão no agro: especialista alerta para riscos da sucessão não planejada

Organizar o patrimônio da família rural ainda é um desafio para boa parte dos produtores brasileiros. A falta de planejamento sucessório, especialmente em um setor onde grande parte dos bens está concentrada em imóveis e terras produtivas, pode gerar custos elevados, travar operações e até levar à venda forçada de propriedades. A análise é da especialista Ana Laura Gonçalves Leite, convidada da A Protagonista, que destacou os impactos da desorganização patrimonial e as soluções disponíveis para o agronegócio.

Natural de Francisco Beltrão (PR), Ana Laura é formada em Direito, com pós-graduação pela FGV e PUC Campinas, e atua há anos na área tributária com foco no agroindustrial. Primeira da família a cursar universidade, ela transformou a experiência no campo e a trajetória pessoal em propósito: ajudar produtores a proteger o patrimônio construído ao longo de gerações.

Sucessão não planejada pode custar 20% do patrimônio

Segundo Ana Laura, a realidade é dura: quando um herdeiro falece e a família não se preparou, o processo de inventário pode consumir cerca de 20% do valor total dos bens. Entram nessa conta o ITCMD (imposto sobre transmissão), taxas cartorárias e honorários advocatícios.

No campo, o problema se agrava porque a maior parte do patrimônio é imobilizada, como terras e estruturas produtivas. “A família fica sem liquidez para custear o inventário. Em muitos casos, é obrigada a vender bens por valores abaixo do mercado apenas para viabilizar o processo”, explica.

A ausência de planejamento também expõe os produtores a disputas judiciais entre herdeiros, que podem se arrastar por anos e comprometer a continuidade das atividades da fazenda.

Reforma tributária e novo cadastro imobiliário elevam a urgência

Ana Laura reforça que o momento exige ainda mais atenção. A partir de 2025, o Cadastro Imobiliário Brasileiro deve integrar dados e georreferenciamentos de propriedades rurais, ampliando o cruzamento de informações. Paralelamente, a reforma tributária deve aumentar a tributação sobre sucessões, elevando o custo do inventário.

“Quem não se organizar agora tende a enfrentar processos mais caros e burocráticos. Planejar antes traz tranquilidade e evita prejuízos”, afirma.

Holdings, testamentos e seguro de vida: o trio do planejamento sucessório

A especialista destaca que, embora a criação de holdings seja conhecida no campo, ela não é a única ferramenta, nem sempre é suficiente sozinha. A estratégia mais eficiente combina:

  • Holding familiar

Organiza a estrutura societária, centraliza bens e facilita a transferência entre gerações.

  • Testamento

Garante que a vontade do proprietário seja cumprida, reduz disputas e assegura a continuidade do negócio.

  • Seguro de vida

Considerado por Ana Laura uma das ferramentas mais poderosas, especialmente para resolver o problema da falta de liquidez. “O seguro não entra no inventário, não é penhorável e não sofre incidência de imposto de renda. Ele libera recursos imediatos para que a família não precise vender patrimônio às pressas”, explica.

Ela lembra que, apesar de muitos brasileiros acharem que seguro de vida é caro, o produto se tornou mais acessível, e a cobertura pode ultrapassar R$ 100 milhões, atendendo desde pequenos produtores até grandes grupos rurais.

“É surpreendente: mais de 70% dos brasileiros têm seguro de celular, mas menos de 10% têm seguro de vida”, observa.

Inventário sem planejamento pode travar até a venda de bens

Outro alerta importante: durante o inventário, o CPF do falecido é cancelado, o que impede a família de negociar bens sem autorização judicial. Esse processo pode levar meses e, segundo Ana Laura, empurrar famílias para vendas emergenciais e desvantajosas.

“A falta de organização dilapida um patrimônio que levou décadas para ser construído. Muitas mulheres e filhos acabam sem alternativa”, afirma.

Planejamento é gesto de cuidado e proteção, diz especialista

Ana Laura encerra destacando que pensar na sucessão não é pessimismo, mas responsabilidade. “A sucessão não é um evento; é um processo. Quem planeja cuida da família, evita conflitos e garante que anos de trabalho no campo continuem dando frutos.”

Ela reforça que o momento ideal para começar é sempre agora:
“Não basta plantar: é preciso colher de forma sustentável e deixar um legado íntegro para quem vem depois.”

Sair da versão mobile