A cafeicultura brasileira ganha cada vez mais força pelas mãos de mulheres que unem tradição, inovação e propósito no campo. Histórias como as de Marília Alves, Adriane Fredi e Renata Silveira mostram que, por trás de cada xícara de café, há trajetórias marcadas por desafios, aprendizado e transformação.
Seja dando continuidade a uma herança familiar, reinventando a própria carreira ou descobrindo um novo caminho de vida, essas produtoras representam um movimento crescente de protagonismo feminino no agro.
Tradição familiar e busca por espaço no campo
No sul de Minas Gerais, Marília Alves carrega a força de quatro gerações dedicadas ao café. Engenheira agrônoma recém-formada, aos 22 anos ela já atua diretamente no manejo da lavoura, acompanhando todas as etapas da produção, do plantio à colheita.
Apesar do conhecimento técnico, Marília relata que o reconhecimento no campo ainda é um desafio para mulheres, especialmente jovens.
Segundo ela, situações em que suas opiniões não são levadas a sério ou comentários desrespeitosos ainda fazem parte da rotina em ambientes como cooperativas e eventos técnicos.
Ainda assim, a produtora destaca que o cenário vem mudando. A participação em grupos como o Cafeínas, da Cocatrel, mostra o avanço da presença feminina na cafeicultura e reforça a importância da união entre mulheres no setor.
Para Marília, o futuro passa pela combinação entre tradição, conhecimento e persistência.
Da vida corporativa ao café regenerativo
A trajetória de Adriane Fredi é marcada por uma mudança radical. Ex-executiva de uma multinacional, ela deixou o mundo corporativo para investir na cafeicultura em Bueno Brandão (MG), no início dos anos 2000.
O que começou como um desafio se transformou em um novo propósito de vida. Com o passar dos anos, Adriane aprofundou os estudos e decidiu dar um passo além: migrar da produção convencional para um modelo agroflorestal.
Hoje, a propriedade trabalha com práticas regenerativas, focadas na preservação ambiental e na qualidade dos grãos.
O resultado veio em forma de reconhecimento. Em 2024, a fazenda recebeu o prêmio de Fazenda Sustentável, consolidando o trabalho desenvolvido ao longo dos anos.
Para Adriane, o café vai além da produção. É uma conexão entre passado, presente e futuro e um instrumento de transformação.
Da academia ao café especial exportado
Já a história de Renata Silveira mostra como o café pode surgir de forma inesperada. Com formação em enfermagem, mestrado, doutorado e pós-doutorados, ela nunca imaginou que se envolveria com a cafeicultura.
Foi a partir de uma simples percepção no dia a dia, o sabor diferente do café produzido na propriedade da família, que tudo mudou.
Curiosa, Renata buscou análise técnica e descobriu que o grão atingia padrão de café especial, com nota de 87,75 pontos.
O resultado surpreendeu: a primeira safra foi totalmente exportada para o Japão. Desde então, ela passou a se dedicar ao universo dos cafés especiais, conciliando a vida profissional com os desafios pessoais de ser mulher, mãe e produtora.
Para Renata, o café representou uma segunda chance e a possibilidade de construir um novo caminho.