TRANSIÇÃO DE CARREIRA

Do corporativo ao mel: conheça a história da empresária que trocou o agronegócio pela meliponicultura

Para ficar mais próxima da família, Mariana Colpo resolveu estudar as abelhas e investir no mel como negócio

Do corporativo ao mel: conheça a história da empresária que trocou o agronegócio pela meliponicultura

O mel é muito mais do que um alimento. Ele concentra história, biodiversidade e o trabalho silencioso das abelhas nativas sem ferrão, espécies fundamentais para a polinização, a regeneração da natureza e o equilíbrio dos ecossistemas. No Brasil, esse universo ganhou uma nova embaixadora: a meliponicultora Mariana Colpo Castro, fundadora do Meliponário das Pedras, convidada de A Protagonista.

Nascida em Criciúma (SC), Mariana transformou a paixão pela natureza em propósito de vida. Hoje, ela une produção, pesquisa e educação ambiental para valorizar a cadeia das abelhas nativas sem ferrão e mostrar que o agro também é sinônimo de cuidado, cultura e futuro.

Do agronegócio corporativo às abelhas nativas

Formada em Relações Internacionais, com MBAs e especializações em instituições como FGV e ESPM, Mariana construiu uma carreira sólida no agronegócio, atuando em fazendas de fruticultura, grãos, sementes e depois na indústria de sementes e biotecnologia.

Após mais de uma década nesse ambiente corporativo, em 2023 ela decidiu fazer uma transição de carreira.

“Resolvi mudar para ficar mais próxima da minha família, das minhas crianças. Permaneci no agronegócio, mas investi tempo e conhecimento no estudo das abelhas”, contou.

O interesse pelas abelhas começou em casa, com uma colônia de jataí no terreno da família. A curiosidade aumentou quando ela experimentou um kit de degustação de méis de abelhas nativas.

“Fiquei encantada com a diversidade de sabores e sensações. Comecei a estudar mais e descobri que existem mais de 20 mil espécies de abelhas no mundo. Só no Brasil, são mais de 300 espécies nativas”, explica.

O que diferencia o mel das abelhas nativas

A maioria dos consumidores conhece o mel produzido pela Apis mellifera, espécie exótica que deu origem à apicultura tradicional. Mas, segundo Mariana, o universo das abelhas nativas, a meliponicultura, ainda é pouco explorado e quase desconhecido pelo grande público.

Além do papel fundamental na polinização, o mel dessas abelhas tem características únicas.

“As abelhas nativas produzem um mel em potinhos de cera, num ambiente rico em leveduras e bactérias da fermentação. É um mel vivo, com sabor mais ácido, mais cítrico, menos doce e com maior umidade. É totalmente diferente do mel que as pessoas estão acostumadas”, detalha.

Na entrevista, Mariana apresentou três espécies de abelhas nativas: jataí, mandaçaia e tubuna, cada uma com méis de cores, texturas e sabores distintos, alguns tão claros que nem parecem mel à primeira vista.

Renda no campo e desenvolvimento comunitário

Ao mergulhar na meliponicultura, Mariana se deparou com um desafio central: escala de produção. Enquanto uma colmeia de Apis mellifera pode produzir de 30 a 80 kg de mel por ano, uma abelha nativa gera, em média, de 200 gramas a 3 ou 6 litros por ano, dependendo da espécie.

Para viabilizar o negócio, ela criou o projeto Caminhos do Mel, voltado ao desenvolvimento comunitário rural na Serra da Mantiqueira, no município de Gonçalves (MG).

“Engajamos famílias da zona rural na meliponicultura para que encontrem uma fonte adicional de renda. Trabalhamos na produção, no manejo e também na regularização dos produtos”, explica.

A iniciativa inclui a construção de uma unidade de beneficiamento de produtos das abelhas, que será inspecionada por consórcio público (CISB), permitindo a comercialização formal dos méis e derivados.

Vivências sensoriais e educação ambiental

Mariana percebeu rapidamente que o mel de abelhas nativas “não se vende sozinho”. Por ser um produto pouco conhecido, exige explicação e experiência.

A partir disso, nasceu o projeto Vivências Sensoriais, em parceria com o confeiteiro Marcos Musi.

“Fazemos degustações de méis de abelhas nativas harmonizados com produtos artesanais brasileiros. Atuamos em empresas, empórios, restaurantes e hotéis, sempre unindo gastronomia e educação ambiental”, conta.

As vivências ajudam o público a conhecer as abelhas, entender o papel da polinização e perceber o impacto das ações humanas no ambiente.

“Quando você começa a mexer com abelhas, passa a enxergar as plantas à sua volta, o período de floração, o recurso que elas precisam para sobreviver. O ambiente da abelha é perfeito porque nos coloca dentro da natureza, mostrando o impacto que causamos no ecossistema”, afirma.

Casa de mel em forma de colmeia na Serra da Mantiqueira

Para aproximar ainda mais as pessoas desse universo, Mariana estruturou uma casa de mel em formato de domo, que simula uma colmeia, em Gonçalves (MG). O espaço foi construído dentro das normas sanitárias e regulatórias, mas pensado para receber visitantes, turistas, escolas e grupos interessados em meio ambiente.

No entorno, serão realizadas vivências presenciais, com degustação de méis, observação de abelhas, atividades de educação ambiental e ações voltadas a crianças.

“Queremos desenvolver produtos mais naturais, com menos aditivos químicos, usando mel, própolis e cera, desde itens para uso humano, como cremes cicatrizantes, até produtos para animais, como formulações para equinos”, revela.

Desafios regulatórios e de profissionalização da cadeia

Apesar do entusiasmo com o crescimento da meliponicultura, Mariana destaca desafios importantes:

  • Baixa escala de produção
  • Falta de profissionalização no manejo por espécie
  • Lacunas na legislação específica para mel de abelhas nativas
  • Custos elevados para testes e manutenção de unidades de beneficiamento

“O mel de abelhas nativas não segue o mesmo padrão de qualidade do mel de Apis mellifera, e a legislação ainda é muito limitada. Também sonho em exportar esses méis, mas isso exige produção organizada e segurança regulatória”, afirma.

Protagonismo feminino e conciliação com a maternidade

Além de empreendedora, Mariana é casada com Rogério e mãe de quatro filhos, entre biológicos e adotivos. Ela destaca que a meliponicultura permitiu conciliar trabalho, maternidade e propósito.

“É um animal muito seguro. Minhas crianças vão junto, participam das visitas, das atividades nas escolas. Para uma mulher, ter uma profissão que permite levar os filhos, transmitir valores e conexão com a natureza é um privilégio.”

No ambiente da meliponicultura, ela acredita que as mulheres têm um diferencial importante.

“Vejo que as mulheres têm mais sensibilidade no manejo e tratam os produtos das abelhas com uma sofisticação diferente — mais detalhe, mais cuidado, mais dedicação em apresentar esse universo.”

Um oceano azul de oportunidades no agro

Para Mariana, a meliponicultura é um verdadeiro “oceano azul” dentro do agro brasileiro: um setor com grande potencial de crescimento, impacto socioambiental positivo e geração de renda qualificada no campo.

“É muito bonito ver como o mel conecta as pessoas com a natureza. Todos nós precisamos, em algum momento, parar, respirar, experimentar algo com calma e lembrar que fazemos parte desse todo.”